Domingo, 2 de Outubro de 2005

Feijoada à Minha Moda

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo.

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão..

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta...— jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes
(Vinicius de Moraes)*F.M.uma AMIGA QUERIDA


publicado por vagueando às 12:13
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5 comentários:
De Anónimo a 3 de Outubro de 2005 às 11:29
Olha abriste-me o apetite... e parabésn, está lindo.... como sempre.elsita
(http://umaalmaescondida.blogs.sapo.pt/)
(mailto:eelsita@sapo.pt)


De Anónimo a 3 de Outubro de 2005 às 08:51
rsrsrsr e que bem se comia daqui a nada uma feijoada feita por poetas....beijo Carlos E CONTINUAS SEMPRE O MESMO SEDUTOR ...espalhas sedução por onde passas . beijoAna Luar
(http://aromademulher.blogs.sapo.pt/)
(mailto:luar_zita@msn.com)


De Anónimo a 3 de Outubro de 2005 às 02:02
Boa noite e obrigada pelo comentário no meu blog :)) se bem que ñ entendi pq aquele comentario mas....olhando para o seu blog entendi que temos aqui um senhor sedutor, sim senhora, parabéns :)a proposito, não gosto de feijoada mas pensando bem hei-de experimentar uma que outra feijoada feita com bom requinte para ver se surge este efeito em mim, e se surgir depois "é mole viver de pão e água!" :))) aparecerei por cá mais vezes, mais uma vez Obrigada pela sua visita no meu cantinho. Beth*Beth
(http://euasos.blogs.sapo.pt/)
(mailto:xamina@sapo.pt)


De Anónimo a 2 de Outubro de 2005 às 22:30
"Nunca é vã a palavra de um poeta...-jamais!"! Vinicius, irrecusável! Beijoeu
</a>
(mailto:carmoroby@hotmail.com)


De Anónimo a 2 de Outubro de 2005 às 18:56
... faz crescer àgua na boca...boa escolha! Parabéns! BeijoMaria Papoila
(http://apapoila.blogs.sapo.pt)
(mailto:msantosilva@sapo.pt)


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